Os últimos anos têm sido particularmente duros para os portugueses. À muito anunciada crise financeira, juntou-se uma dolorosa crise económica, com duas consequências-matriz: alarmante nível de desemprego e diminuição significativa dos rendimentos disponíveis para aqueles que trabalham (ou estão aposentados).
As consequências – por vezes dramáticas – na vida das famílias - aliadas ao que, quase diariamente, vem a lume relativamente à conduta de alguns políticos ou gestores nomeados por políticos - aumentaram um já muito considerável nível de ceticismo dos cidadãos relativamente à política, às instituições e, principalmente, aos políticos (sejam eles atores veteranos ou recentes nestes palcos).
Este estado que me atrevo a designar de decepção geral não pode, no entanto, aprisionar-nos a iniciativa e tolher-nos a lucidez, designadamente no que a esta data diz respeito.
Culpar o 25 Abril (enquanto génese e projeto de sociedade trazida por uma revolução) pelo atual panorama social e político de Portugal e considerar que, apesar de tudo o que hoje se passa, se vivia melhor antes de 1974 são dois erros tão frequentes como grosseiramente injustos.
A revolução dos cravos constituiu uma oportunidade para o nosso país. Não só por pôr fim a um regime político decadente e nocivo à nação, como por traçar aqueles que deveriam ser os três pilares essenciais do Portugal daquela época: democratizar, descolonizar e desenvolver.
Quase quatro décadas depois, é inegável a concretização destes três objetivos. Porém, houve e há falhas graves, refletidas na crise económica generalizada, nas desigualdades sociais indisfarçáveis e na notória frustração dos cidadãos relativamente ao mecanismo da representatividade (coração de qualquer democracia).
Este problemas – graves e já quase sistémicos – não devem, porém, apagar ou esconder o muito que se fez ou progrediu e, principalmente, o sentido do 25 de Abril, de quem o interpretou e de quem o abraçou como projeto colectivo de progresso de um país. As chagas que tanto nos afligem não são, por isso, filhas da revolução dos cravos mas sim o resultado de repetidos erros dos mais variados responsáveis políticos e económicos e de uma distorção daquilo que deve ser a democracia.
Entender o contrário, seria o mesmo que - permitam-me a comparação :
- ter uma doença grave e curá-la
- anos mais tarde, ter-se outra doença (que nada teve a ver com a primeira) e atribuir a causa desta segunda doença à cura da primeira, quiçá por se estar vivo e, por isso, sujeito à enfermidade
Por outro lado, afirmar que se vivia melhor antes do 25 de Abril de 1974 é um erro histórico crasso, que ignora como se vivia nas décadas de 40, 50, 60 e 70 no nosso país:
- elevadas taxas de mortalidade infantil e analfabetismo
- esperança média de vida mais baixa
- direitos das mulheres diminutos
- reduzida frequência dos níveis académicos médio e superior
- pib reduzido
- escasso acesso a bens de consumo básicos na maior parte da Europa ocidental,
Por tudo isto, apenas para uma minoria (muito, muito restrita) esse Portugal era mais agradável e representava uma vida melhor do que aquela que hoje é experienciada. Mesmo para aqueles que ignorem aspectos tão importantes como a liberdade de expressão, a realização de eleições livres e a não participação em várias guerras condenadas ao fracasso militar e diplomático.
O 25 de Abril de 1974 constituiu um dos mais importantes e profícuos episódios da nossa história contemporânea. Não duvidemos da sua utilidade, da necessidade da sua efectivação. Concentremo-nos, isso sim, em ser fiéis ao seu espírito, em especial no que diz respeito à criação e justa distribuição da riqueza (desenvolvimento).
Fátima Campos
Presidente da J F de Monte Abraão